Este é um microcosmo apartidário embora ideológico, pois «nenhuma escrita é ideologicamente neutra*»

*Roland Bartes

Intros: 1 2

sábado, 21 de janeiro de 2017

Um texto para quem acredita

«Quanto maiores somos em humildade, tanto mais próximos estamos da grandeza.»

Rabindranath Tagore - Poeta, romancista, músico e dramaturgo indiano.

A 4 de julho de 2004, Portugal disputava a final do campeonato da Europa. Muitos acreditaram ser impossível escapar-nos a vitória. Éramos favoritos, tínhamos melhores jogadores, muitas estrelas, jogávamos em casa e até contávamos com invocações a Nossa Senhora…a de Scolari.

Contudo, e contra a forte convicção nacional, perdemos a final com os gregos por 0-1. Pouco tardou para muitos virem criticar a Seleção e outros até, jocosamente, ironizaram que nem com apoio divino foi capaz de ganhar.

Ora, não podendo e, muito menos, querendo entender os superiores e divinos desígnios de Quem era invocado, restringindo-me, tão-somente, a uma singela e rude presunção dos factos, com o máximo respeito e com algum, quiçá, imperdoável atrevimento, dizendo que os requisitos para termos aquela vitória do nosso lado não estavam reunidos.

Não estavam reunidos porquanto, na realidade, éramos verdadeiramente favoritos, tínhamos melhor jogadores, muitas estrelas, jogávamos em casa, tudo, portanto, a nosso favor…sobretudo certezas prévias. Logo, não tínhamos aquilo que seria necessário para ganhar.

Para ganharmos, carecíamos dos mais importantes elementos, nomeadamente: humildade, condições muito difíceis, quase impossibilidade e até do medo. Só reunidos estes e outros requisitos similares é que poderíamos, verdadeiramente, estar aptos a contar com a ajuda de Quem queríamos. A ajuda Daquela que sempre nos ladeou, isso apesar de o povo português abandoná-La cada vez mais, de certo modo incumprindo com o Pacto que os nossos antepassados ergueram respeitosamente com Ela e que foi cumprido até, pelo menos, à primeira década do século XX, sem descurar que, já no novo e recém-chegado regime republicano, em 1917, fomos, de certo modo, alertados diretamente para aquele incumprimento.

Tais elementos estiveram reunidos no nosso passado, quando Afonso Henriques defrontou exércitos, de castelhanos e de mouros, muito mais numerosos que o seu; Quando em Aljubarrota havia um assustador desequilíbrio numérico de homens num e noutro exército, incontestavelmente favorável aos castelhanos, contabilizado em 7.000 portugueses para 30.000 estrangeiros, o que dava mais de 4 adversários para um português. Mas isso não foi impeditivo para, após aquela batalha, erguer-se, do lado vencedor, o Mosteiro de Santa Maria da Vitória; Quando os Descobrimentos assentaram numa incerteza complexa só ultrapassável por uma coragem e crença desmedidas que nos aclarou o caminho, até mesmo científico e técnico, rumo às Áfricas, à India e ao Brasil; Ou com D. João II, 8.° Duque de Bragança que incorreu na consequência de morte no caso da insurreição contra Filipe III não resultar a 1 de dezembro de 1640. Apesar do quase incalculável risco e das possibilidades serem diminutas, a ação resultou. Já como D. João IV, Rei de Portugal e Algarves, entendeu que tudo o que aconteceu em prol da libertação dos portugueses, não se deveu tanto a ele e aos seus apoiantes mas antes sim a Nossa Senhora e, como tal, se Ela tinha protegido, mais ainda do que ele, o seu povo, a Coroa Portuguesa era Dela, mais do que dele.

Avançando na máquina do tempo, e já sem muitos mais feitos que unissem a Nação como aqueles uniram naquela envergadura e importância, resta-nos, pasmemo-nos, o futebol, concretamente a vitória no Euro 2016. Se atendermos ao até aqui exposto, Portugal reunia, uma vez mais, os aludidos requisitos. Ou seja, poucos afiançavam a nossa Seleção, muita imprensa desacreditava-nos, éramos, face à França, os emigrantes, os porteiros, os trabalhadores da construção civil, tantos riram quando Fernando Santos disse que só regressava a Portugal depois da Final, etc, etc. Quiçá, e apesar de ser um desporto, Portugal seria atendido num infindável desígnio que não conseguimos desvendar.

Após um progresso sofrido, com muitos empates, recaídos numa humilhante terceira posição da pool inicial, com subsequentes vitórias pouco entusiasmantes, dir-se-ia mesmo um caminho inverso aos semideuses do Olimpo que todos os compatriotas quereriam e normalmente veem nas outras equipas vencedoras, acabaríamos, à nossa maneira, por chegar à Final.

No desafio decisivo, a ser disputado na própria casa do adversário, i.e. no pior cenário possível que poderia ter sido traçado pela ironia, perdíamos, a acrescer à já difícil empresa, o timoneiro – Ronaldo. O maior jogador português de todos os tempos havia sido vilmente derrubado, passando a equipa a ser capitaneada por um jogador que foi ostracizado e preterido pelos grandes clubes - Nani. Sobre uma fortíssima pressão da equipa adversária, bem como do público esmagadoramente francês, estavam, finalmente reunidos todos os elementos que superiormente referíamos. Por outro lado, e perante a realidade nua e crua dos factos, bem como em absoluto pragmatismo, o desfecho era, por maioria de razão, apenas um: derrota certa. Todavia, não foi isso que aconteceu.

Entrando no jogo Eder, sim aquele avançado que era humilhado, fora e dentro de portas, que para nada servia naquela Seleção, criado numa daquelas instituições públicas hoje tão criticadas em contraste com soluções bem mais avançadas de acolhimento em lares de composição unissexual, pouco habilitado para uma fase daquelas, que não era sequer jogador que bastasse, coube a ele, aquele que tinha tudo para ser ninguém num futuro muito próximo, ser tudo por muitas e muitas gerações. Nascia a 10 de julho de 2016, ao minuto 109’ do jogo, ao som de um requintado e tão característico fado de Paredes, uma simples mas bonita lenda nos nossos rotineiros dias. Uma vez mais os portugueses, à sua maneira, realizavam uma proeza aos olhos de muitos e muitos. Por essa arte menor e relegada por tantos, Portugal ganhava enfoque e respeito.

A Fonte, essa, foi porém sempre a mesma…desde que tudo começou nessa Epopeia Lusíada, que somos todos nós portugueses:

Pintura - 'Madonna and Child', c.1590, de Domenikos Theotokopoulos El Greco (1541-1614), exposta no Detroit Institute of Arts Michigan USA.


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