Este é um microcosmo apartidário embora ideológico, pois «nenhuma escrita é ideologicamente neutra*»

*Roland Bartes

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sexta-feira, 14 de outubro de 2016

António Guterres, Secretário-geral da ONU


873 anos após o dia em que Portugal, a 5 de outubro de 1143, tornava-se, pelo Tratado de Zamora, formalmente um país independente, a eleição de António Guterres à liderança da “Sociedade das Nações”, aquela que Immanuel Kant prognosticara como a futura e atual Organização das Nações Unidas (ONU), deixou-me satisfeito enquanto português, satisfação essa advinda de uma circunscrita conjugação de fundamentos:

1.º) Responsabilidade – António Guterres foi mais um dos maus primeiros-ministros socialistas que tivemos, eventualmente um dos piores desde do 25 de abril. Sempre o disse e reitero. Contudo, tempos depois, mais recentemente, teve a coragem de reconhecer, até certa medida, isso mesmo publicamente e assumir as suas responsabilidades políticas. Assim, numa escolha entre as duas realidades – incompetência vs responsabilidade, e por uma razão de ser e de estar, destaco e acolho a segunda.

2.º) Humildade – Guterres foi o único ex-primeiro-ministro que conheci que teve a humildade de reconhecer que errou e que teve responsabilidades no estado do Estado. Atribuo um valor enorme a essa postura e, desde desse dia, ganhou o meu respeito.

3.º) União – O quanto é melhor quando estamos todos do mesmo lado da barricada, a desenvolver esforços por um objetivo comum. Em torno do Eng. Guterres esteve o Governo, a oposição, as instituições, a comunicação social, etc. Unidos conseguiram. É simples. Porque não é mais assim? Somos pequenos demais para estarmos tão fracionados. Outros tempos, quando fomos grandes, e vestíamos com o azul dos mares e com o branco da paz, unidos, ditamos e gerimos meio mundo. Hoje, algo mais parecido, tem sido só mesmo pela Seleção…

4.º) Catolicismo – O catolicismo de Guterres é vivido com uma seriedade invulgar. Ele consegue, de facto, trazer à sua vida pública aquilo que professa e crê. Não consigo descurar, no período que governou Portugal, o seu ruidoso silêncio no referendo à lei abortiva/terminadora à data, silêncio que muito quis dizer naquela fase e que, na minha opinião, foi decisivo, por influência de bastidores, para a vitória do não.
Além disso, testemunhei, na primeira pessoa, enumeras vezes, quando, nos idos anos 90, nos tempos universitários, nas minhas incursões a Lisboa em alguns fins de semana, ao deslocar-me à missa dominical, na ‘Igreja do Sagrado Coração de Jesus’ (projeto dos arquitetos Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas) a habitual chegada, minutos antes do início da celebração, de um carro preto e dele sair o então primeiro-ministro. Entrava, permanecia e saía sempre de forma discreta e serena.

5.º) Inteligência – O currículo que possui é demonstrativo das suas capacidades, especialmente na parcela relativa à sua licenciatura em Engenharia Eletrotécnica, pelo Instituto Superior Técnico da Universidade Técnica de Lisboa, com média final de 19 valores, tendo sido um dos melhores alunos que o Técnico teve. Apesar da gafe do P.I.B., o homem, acreditem, sabe (bastante) de matemática.

6.º) Conhecimento – Num difícil processo de escrutínio, António Guterres foi sempre o melhor nas seis fases de seleção para secretário-geral da ONU. Num formato que é de relevar, porquanto procura obter a qualidade do ocupante ao cargo, método que deveria fazer-se refletir nos modos como as administrações em geral e até as próprias democracias operam… o Eng. Guterres demonstrou a sua qualidade enquanto homem conhecedor.

7.º) Prestígio – Esta nomeação e ocupação do cargo de secretário-geral da ONU é, indubitavelmente, prestigiante para Portugal. Guterres é hoje, de forma destacada, o mais prestigiado socialista português. O seu prestígio ultrapassa o de Mário Soares, porquanto alcançou este patamar na política internacional e, além disso, é respeitado pela esquerda, mas também pela direita...o que não acontece, em dois dos casos elencados, com Soares.

8.º) Diplomacia – A Diplomacia portuguesa está, novamente, de parabéns e, de facto, é de salientar como um País tão pequeno em dimensão, outrora tão grande, consegue, por intermédio de personalidades, ocupar lugares de destaque.

9.º) Bondade – Não tenho dúvida alguma que o Eng. Guterres é um bom homem. Fará tudo em prol da Paz…quiçá alcançará o Nobel. Assim espero.

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