Este é um microcosmo apartidário embora ideológico, pois «nenhuma escrita é ideologicamente neutra*»

*Roland Bartes

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sexta-feira, 20 de março de 2015

Pietá por António, o cartoonista


É este o cartoon, do último sábado, do António (Expresso). Trato-o assim, na primeira pessoa, pois é assim que o artista se apresenta: tu cá, tu lá.

Pietá, relembre-se, é uma obra de Michelangelo, datada de 1499, talvez a mais emblemática das suas esculturas. Representa Jesus morto nos braços de Sua Mãe, encontrando-se exposta na Basílica de São Pedro, no Estado do Vaticano. Esta é uma obra, inquestionavelmente, prima.

Quando nos reportamos a uma obra-prima, não podemos atender apenas ao teor estético dela. Uma obra dessa magnitude é prima pois é transversal, i.e. toca diferentes componentes em cada pessoa: sentimental, religiosa, cultural, sensitiva…e também estética.

Ou seja, aquela escultura não trás significado exclusivo, como por exemplo o religioso, aos cristãos. Também um ateu, sensivelmente reconhecerá a magnificência da obra que visiona, porquanto referencia-se noutros dos aspectos mencionados e que não se resumem ao religioso.

Neste contexto, aquela obra expressa, também, para não crentes, outras dimensões que não são passíveis de catalogar, uma vez entrarmos no mais puro e restrito sentido subjectivo de análise de cada um.

Todavia, Pietá, tem igualmente um sentido humano, pois traduz o sentimento da profunda tristeza de uma mãe que perdeu um filho. Ora, é precisamente neste contexto que não é razoável brincar ou fazer analogias bacocas. O sentimento de uma mãe que chora um filho, não é mensurável e, assim, não é passível de ser transposta sequer para uma graçola política.

É pelo conjunto dos argumentos aqui produzidos que considero lastimável a tentativa do cartoonista em ser engraçado com aquela obra do escultor e precursor do Maneirismo florentino. Se dúvida não existia que António não é profícuo em bom gosto nos contextos humorísticos que cria, desde sábado passado fiquei sem dúvida que não estamos perante um humanista.

Por fim, se António alguma vez teve graça, e ainda possa eventual e pontualmente ter alguma, genericamente tem vindo a perdê-la de forma dramática. Julgo mesmo que o Expresso devia promover, em substituição, o seu colega do Caderno de Economia, que apesar de não aprofundar tanto no traço, nem lhe dar tanta primazia como faz o seu homólogo do Primeiro Caderno, Rodrigo tem hoje, imensamente, mais graça nos contextos que cria.

Never Charlie,
Pedro.

Post Scriptum: Além de tudo, e ao contrário do que o António pensa e muitos outros também, talvez não seja inteligente dar já o Passos como morto…

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