Este é um microcosmo apartidário embora ideológico, pois «nenhuma escrita é ideologicamente neutra*»

*Roland Bartes

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domingo, 13 de setembro de 2009

Uma Questão de Fé... (in :Ilhas N.º 13 - 02/02/2004)


Muitos afirmam ser a morte a única certeza na existência humana. Todavia, devemos afirmar que, pessoalmente, a única certeza em que cremos é na de uma existência divina a quem designamos Deus.

Esta presença above us que nos referimos, e como bem sabem, está directamente conectada com velhas questões, a mais distinta delas a da origem de toda a existência universal, tema este rebatido pela Filosofia ao longo de séculos. Pelo que a nós toca, a resposta reside, acima de tudo, numa espiritualidade que flui nos seres humanos, que nos atribui a tão inexplicável racio, que nos distingue dos outros seres vivos. Esta razão assume especial nitidez se dermos atenção e relevância por intermédio de fenómenos como os da arte e da cultura, algo que nenhum outro ser (sem espírito) pode fazê-lo. Nunca nos esqueçamos que muitas espécies não humanas podem, inclusive, desenvolver comunicação, comunidades, sociedades, até mesmo refugiarem-se em utensílios para concretizarem determinados fins (como está provado pela ciência, em relação a algumas espécies de símios), mas nunca, nunca mesmo, criar um objecto e apreciá-lo, apenas pelo prazer que lhe dá observá-lo.

Outra forma de explicação para esta «espiritualidade», foi, por exemplo, concretizada por Santo Agostinho (Sécs. IV-V) que na senda de Platão formulou a primeira síntese da filosofia cristã. Com base nos seus escritos e nos da física de Aristóteles, São Tomás de Aquino (Séc. XIII) elabora a Suma Teológica que congrega as descobertas científicas com o pensamento cristão, dando assim corpo a uma doutrina sistematizada através de pilares como os da fé e o dos costumes. Porém, não se pense que por estarmos a reportarmo-nos a autores de séculos passados, que tenha aquela doutrina desvirtuado, antes pelo contrário, pois quando o Homem se apercebe de como nasce uma estrela, aquilo a que chamaram o fenómeno do «Big Bang», e que supostamente seria a origem do universo (eliminando-se assim um Criador), hoje e agora alguns cientistas ponderam, afinal, a existência de um «Plano» na origem do Universo, regressando, de certo modo, às aludidas doutrinas iniciadas no século IV.

É o próprio Albert Einstein, que veio rejeitar o Universo cuidadosamente ordenado de Isaac Newton (defensor da teoria gravitacional que traduz uma visão mecanicista do Cosmos [deixando assim uma pequena parte para Deus como «primeira causa» do Universo]), e é o mesmo Einstein que depois veio afirmar: «ciência sem religião é coxa, a religião sem ciência é cega».

Presentemente os físicos concluíram que não há forma de determinar, por exemplo, e mesmo que em tese, o que fará o átomo, levando por isso a que alguns teólogos-cientistas considerem que nesta decisão (o átomo desintegra-se ou não?), Deus pode actuar.

Contudo, não é menos verdade que para a origem do mundo, muitos cientistas deixam a fé à porta do laboratório, mas Mehdi Golshani, inspirando-se no Corão, garante que os fenómenos naturais são sinais de Deus no Universo, sendo este o mesmo argumento usado pelo judaísmo, que consagra a ideia de que para chegar a Deus é preciso compreender as suas obras.

Queríamos apenas antes de terminar esta primeira parte, por assim dizer, deixar um de muitos exemplos interessantes, de um homem de ciência: Charles Townes.

Townes, partilhou o prémio Nobel da Física, por ter descoberto os princípios dos raios laser, tendo afirmado «como crente, sinto profundamente a presença e acção de um ser criador, que está muito além de mim e, contudo sempre pessoal e próximo». Presentemente, professor na Universidade da Califórnia, em Berkeley, acredita que as recentes descobertas em cosmologia revelam «um Universo que se harmoniza com as ideias religiosas», mais especificamente que, «de algum modo, a inteligência deverá ter estado associada às leis do universo».

Querendo abordar agora uma segunda parte, à qual se reportaria à própria definição de Deus quando submetida à visão religiosa, nunca poderíamos deixar de relembrar quantas são as formas como diversas civilizações viram e vêem Deus ao longo de séculos (veja-se Zeus, Júpiter, Odin, Iavé, etc). Hoje todas as verdadeiras religiões crêem, ao seu modo, Naquela Forma Divina a quem também se chama Deus.

Como é óbvio nós temos a nossa própria visão, ou seja, uma fé e crença que não contradizem nem colidem com as outras «formas de ver Deus». Mas enquanto Aquele for significado de paz e solidariedade entre os homens, o nosso estandarte tanto se erguerá pelo catolicismo, como pelo Budismo, pelo Judaísmo ou, até, pelo Islamismo.

Todavia achamos haver cabimento, invocar neste texto a «Mensagem» que se revelou ao mundo em pleno Império Romano, através de Jesus Cristo, Aquele que se inclui na Uníssona Tríade Divina. Foi este que trouxe uma nova perspectiva societária de tal modo progressista e revolucionária para a época, que não podemos deixar de a visionar como sendo expressa por alguém que só mesmo poderia ser Deus encarnado.

Convém sempre relembrar de onde emana a origem da Igreja Católica, e esta advém de Jesus Cristo que, na época em que viveu, era, podemos assim afirmar, um revolucionário que se opôs ao regime ditatorial imposto, que só pretendeu a salvaguarda dos interesses da humanidade, que defendeu as mulheres, os vagabundos e os desajustados, que se bateu pela igualdade entre os homens, sempre aconselhando os ricos a repartirem com os pobres, que sempre deu azo às causas que lhe motivavam, indo, inclusive, ao limite máximo, dando a sua vida por essas mesmas causas.

É preciso ver que muitas das críticas contra o Cristianismo, mais em concreto contra o Catolicismo, emanam muitas das vezes de pressupostos de que a Igreja (seu pilar simultaneamente divino e humano) ser tradicionalista, conservadora e desagregada da actual realidade. Porém, tais afirmações só «pecam» por ignorância, e isto acontece porque há aqueles que não lêem, não vêem e ouvem a real Mensagem da Igreja. Uma coisa é aquele que discorda com conhecimento sobre o assunto, mas tem convicções diversas, outra coisa é tentar descredibilizar uma estrutura que tem fundamentos sólidos em doutrinas elaboradas por jurisconsultos, teólogos e filósofos que, no decurso de longos anos e até aos nossos dias, justificam todos os seus modos de actuação. Dizia um professor alemão meu, da faculdade de Direito da Universidade Católica, que «se todos seguissem os Dez Mandamentos, que não era preciso sequer mais uma linha de legislação ou códigos». Isso no fundo vem igualmente ao encontro do que é a riqueza da Mensagem escrita da Igreja, do seu apostolado, que continuamente é renovada e actualizada pelos seus magistérios ordinários sejam eles encíclicos, documentos pontifícios, exortações, ou, até mesmo, pelo Código Canónico, que resulta de um trabalho de séculos, elaborado pelos «juristas das leis divinas», muitos daqueles textos informadores criados na «época patrística», e que resultaram num trabalho jurídico de rara qualidade técnica, que convido tanto os presentes legisladores das leis civis, bem como, qualquer um a lê-lo.

Além do legado escrito, a Mensagem que é transmitida por intermédio da Igreja, passa, também, por esta ser um dos mais eficazes veículos e com mais ampla abrangência no combate às diversas causas sociais que são flagelo das sociedades hodiernas, através do apoio que é prestado pelas suas organizações, congregações, etc.

É na senda desta missão de tentar transmitir uma Mensagem que vem revelar algo nunca antes revelado, que nomes como os do Papas João XXIII, João Paulo II e o da Madre Teresa de Calcutá nos surgem à memória como seus principais arautos.

Não podemos deixar de relembrar que foi precisamente com João XXIII que se iniciou a reintegração e a devida actualização da Igreja perante os homens. É verdade que muitas vezes ela andou desfasada da verdadeira Mensagem, sendo coordenada por quem não a merecia coordenar ao longo dos séculos até, por vezes, confundindo-se princípios basilares da Santa Igreja com interesses próprios, luxuria, etc. Mas tudo isso não invalida o cerne da real Mensagem que ultrapassa tudo isso. E João XXIII apercebendo-se do contexto, e através do magistério extraordinário que se designou por Concílio Vaticano II, consegui inovações para Igreja que até hoje ainda se encontram à frente do seu tempo. Só é pena muitos ainda hoje não compreenderem isso.

Quanto a Madre Teresa de Calcutá o que fez foi, pura e simplesmente, algo duma força extraordinária para um simples ser humano. Ela consegue concretizar em vida o que mais difícil existe, que é ter seguido o caminho menos fácil, ao desfazer-se de todos os seus bens materiais e vocacionar a sua vida ao próximo que é doente, ao próximo que é moribundo, ao próximo que tem falta de afecto, ao próximo que é leproso, etc, etc. Será que nós (cristãos ou não) conseguiremos alguma vez tal feito? Provavelmente não… Até porque muitos de nós estamos tão confortáveis em nossas casas...

Relativamente a João Paulo II, queríamos desde já chamar à colação o mais sublime texto jornalístico que lemos até hoje, e provavelmente um dos mais sublimes que lemos, e que foi escrito por João Bérnard da Costa, na «Casa Encantada», no Jornal «O Público», aquando da celebração dos 25 anos de pontificado daquele Papa. Dizia ele, que muitos Papas ficarão na história, pelo seu conhecimento, pela sua bondade, etc, mas que João Paulo II ficará certamente lembrado pela sua fé. É com base naquela fé, que achamos curioso, para não dizer ridículo, as especulações sobre se ele vai ou não resignar. Ora, quanto a isso estas especulações afiguram-se microscópicas perante a magnitude do exemplo que este homem nos deu e dá, com a sua força na fé, a sua coragem, a sua missão ecuménica, ao estar sempre aberto perante as outras religiões de modo a gerar concertação, por ter tido o desprendimento institucional (quiçá contra padrões conservadores no seio do Vaticano) de pedir o perdão pelos erros cometidos pela Igreja no passado, por pôr a sua vida à disposição do próximo. Em relação a esta última característica citada, veja-se o exemplo escrito na sua Biografia Oficial, em que quando era novo e trabalhava obrigado numa fábrica para o inimigo Nazi, que, entretanto, tinha invadido a Polónia, encontrou no seu caminho, para aquela aludida fábrica, um pobre homem encolhido por estar exposto a temperaturas negativas que se faziam sentir, ele não hesitou em tirar o único casaco que transportava e deu ao pobre homem, tendo depois Carol ficado gravemente doente por ausência do casaco que transportava. É por estes motivos que nem que acamado estivesse, só o facto de sabermos que existe alguém assim na terra que dá e deixará sempre um exemplo desta envergadura, deve só por isso manter-se Papa, sendo a sua presença (apenas) mais que suficiente para nos fortificar na nossa missão enquanto homens que se querem éticos, quando presentemente nas nossas sociedades é isso que cada vez mais falta. Como afirmou uma vez, em Portugal, Michael Gorbatchev, «o verdadeiro socialista vive no Vaticano», reportando-se a João Paulo II.

Para finalizar, gostaríamos de nos referir «à existência de “riquezas” que possui a Igreja e, em particular, o Vaticano, quando existem civilizações inteiras cobertas pelo problema da fome». Porém, qualquer recente licenciado em Economia sabe que mesmo vendendo todos os bens de valor que a Igreja possui, não irradiariam a fome do mundo, nem nada próximo disso. A existência daqueles bens tem uma justificação, quer se concorde ou não com ela, que é a mesma de quem quer oferecer ao seu amigo, de que tanto gosta e que tanto lhe ajudou (isto interpretando subjectivamente na fé de cada um), um presente. Ora se pensarmos que esse «presente» foi dado à Igreja em nome do Criador, ao longo de muitos séculos, facilmente se depreende «as riquezas».

Além disso, e quando nos referíamos à fé de cada um, enumeros cidadãos se referem a determinadas manifestações de fé do nosso povo, como por exemplo, a jornadas que se fazem de joelhos para pagar promessas, como sendo um «espectáculo» que é tido como algo que só revela tristeza, algo de aberrante e brutal, em face de um Deus que se proclama misericordioso?! Todavia, salvo opinião diversa, entendemos que estas manifestações partem de um pressuposto exactamente inverso. Ou seja, quando uma pessoa se autoflagela (vamos assim radicalizar), não o faz por sentimento de tristeza, mas sim pelo de alegria, porque pela sua fé viu algo muito importante na sua vida ser corrigido ou alcançado, quando mais precisava. Por isso, não dever ser encarado este tipo de atitude como um acto meramente físico (e é nesta interpretação que reside o problema), quando do que se trata aqui é de dar não ouro, mas algo ainda maior, a própria crença absoluta em Deus (manifesto da fé), renegando o seu corpo terreno, que supostamente nada interessa, em virtude de um espírito alegre perante algo que colmatou a brecha num determinado momento muito difícil na vida de alguém.
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