Este é um microcosmo apartidário embora ideológico, pois «nenhuma escrita é ideologicamente neutra*»

*Roland Bartes

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sábado, 23 de julho de 2016

Fernando Pessoa, Apontamentos à sua Nota Biográfica


Fernando António Nogueira Pessoa foi, eventualmente, o maior intelectual português. “Nasceu em Lisboa, freguesia dos Mártires, no prédio n.º 4 do Largo de S. Carlos (hoje do Directório) em 13 de Junho de 1888”. Era filho de Joaquim de Seabra Pessoa e de D. Maria Madalena Pinheiro Nogueira, sendo seu avô paterno o general Joaquim António de Araújo Pessoa, combatente das campanhas liberais.


Quanto ao que designou por “ideologia política”, considerava «(…) que o sistema monárquico seria o mais próprio para uma nação organicamente imperial (…)» como era Portugal. Considerava «(…), ao mesmo tempo, a Monarquia completamente inviável em Portugal. Por isso, a haver um plebiscito entre regimes, votaria, embora com pena, pela República. Conservador do estilo inglês, isto é, liberdade dentro do conservantismo, e absolutamente anti-reaccionário.»

Ora, neste domínio, e apesar de se perceber, com nitidez, que Pessoa era essencialmente monárquico, todavia, por razões que se compreendem à luz da época, entendia, naquele período (início do 2.º terço do século XX), inexistir viabilidade para a Monarquia. De notar que estamos em plena ascensão do Estado Novo, assente que era na II república constitucional, cujo texto era firmado em 1933. É compreensível que depois das forças anti monárquicas que dificultaram os (últimos) reinados de D. Carlos e D. Manuel II e, acrescendo a isso, a caótica I república que só trouxe miséria, medo, caos e guerra ao povo português, o restabelecimento da ordem, da segurança e, sobretudo, da organização e da fiabilidade do Estado português por Salazar significava para a grande parte dos portugueses, incluindo Pessoa, diretrizes muito importantes para o futuro do País, cujos aspetos positivos, à data, importavam defender. Além disso, enquanto conservador que era, os pressupostos do Estado Novo eram-lhe atrativos.

Aquilo que expressa é, essencialmente, uma visão de cariz prático e racional. Sem descurarmos do processo de envelhecimento da II república e como Pessoa o analisou subsequentemente, para ele, num primeiro momento, era de todo mais viável a garantia do novo regime em ascensão que se afigurava forte, ao invés de arriscar num regresso à Monarquia (representativo do seu lado emocional) que já tinha sido questionada e que tantos conflitos havia originado. Acresce a isso os inúmeros monárquicos opositores a Salazar e ao regime. Pessoa pensou na ótica de ter um pássaro na mão. Parece óbvio.

De registar, ainda, neste âmbito, que já naquele período se falava em “plesbicito” (entenda-se um referendo nas palavras de hoje). Todavia, e neste específico domínio, trata-se de um caminho apenas possível às mentes abertas e realmente democráticas, que curiosamente nunca foi trilhado, nem pela II república do Estado Novo de Salazar, nem tão pouco pela III do Socialismo de Soares e afins.

Religiosamente considerava-se “cristão gnóstico”, “fiel (…) à Tradição Secreta do Cristianismo”.

Relativamente àquilo que designou por “posição social”, Fernando Pessoa era “anticomunista e anti-socialista”. Chegados aqui, basta constatar o que foram as repúblicas soviéticas e o que é hoje uma Venezuela, um Brasil, uma Grécia e outros. A conclusão é extremamente fácil. Retrocesso e tempo perdido. Reconhecimento de razão a Pessoa.




In Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal, ed. Richard Zenith, Assírio & Alvim, 2003, pp. 203-206.
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