Este é um microcosmo apartidário embora ideológico, pois «nenhuma escrita é ideologicamente neutra*»

*Roland Bartes

Intros: 1 2

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

David Foster Wallace

Cerca de dois anos após o seu suicídio...

«Ténis e tornados

O ténis representou o protótipo desse combate em que a escrita resgata a insuficiência da vida entregue a si mesma, como descreve em "Tennis, trigonometry and tornadoes, a midwestern boyhood" [9], o texto em que David Foster Wallace revisita os anos de tenista adolescente, até descobrir as suas limitações para atingir a alta competição. O seu talento para fazer complicadas equações mentais considerando os acidentes do terreno e o vento para assim prever os efeitos das bolas não chegou para compensar a pequena estatura e a falta de força. Num parágrafo memorável, David Foster Wallace explica como um tornado "sem funil" decidiu o seu futuro. Treinava com o seu parceiro habitual, Gil Antitoi, e não queria parar; estava zangado com o seu corpo, queria magoá-lo, cansá-lo. Quando uma onda sacudiu a paisagem e passou pelo court, Foster Wallace mandou a bola ao ar para perceber a direcção do vento. Ao correr atrás da bola, ultrapassou-a e bateu-a num salto. Estava ainda com os pés no ar quando foi projectado contra a cerca. Antitoi descolou a retina e o quadriculado da cerca de arame ficou marcado no corpo de ambos. Amy, a irmã, disse-lhe que parecia um "waffle". "O ténis de Antitoi continuou a melhorar, mas o meu não."

Em 1996, publica um longo artigo na "Esquire" sobre Michael Joyce, promessa do ténis americano, que acompanha ao Open do Canadá, em Montréal. É um retrato em que sobrevêm as implicações do que implica lutar para ser um dos melhores. A sua melhor prosa, no contexto jornalístico, vai sempre parar às notas de rodapé: "É maravilhoso o ar dele quando fala daquilo que o ténis representa para si (...). Quando fala de ténis e da sua carreira fica de olhos arregalados, as pupilas dilatam-se e há amor no olhar. Não o amor que se sente pelo trabalho ou por uma amante ou não importa qual fogueira de paixão que a maioria de nós escolhe para dizer que ama. É o amor que lemos nos olhos das pessoas de idade casadas e felizes juntas há dezenas e dezenas de anos, ou naqueles crentes de tal maneira crentes ao ponto de dedicarem a sua existência à fé: um amor que se mede naquilo que custou, no que foi preciso renunciar por ele. Que tenha havido uma 'escolha' ou não deixa de ter importância... é precisamente a renúncia a si mesmo e ao poder de escolher que dá forma a esse amor."

Reparem como o olhar de Foster Wallace reconstrói uma infância sacrificada ao ténis: "Quando a direita de Joyce encontra a bola, a sua mão esquerda abre-se atrás dele, como se tivesse deixado cair qualquer coisa, num gesto ornamental que não afecta em nada a pancada. Michael Joyce ignora que a mão esquerda dele se abre durante o impacto: é um fenómeno inconsciente, um tique estético aparecido na infância que agora é inseparável de um gesto inconsciente de Joyce".

Estes temas explodem no mega-romance "Infinite Jest", o segundo que publicou em vida, em que Hal Incandenza é uma jovem promessa do ténis à beira do colapso. Aliás, é entre a expectativa de algo grandioso e o colapso, nessa lógica de competição predadora em que ser o melhor é deixar de ser humano, e ser humano é aceitar perder e desaparecer na multidão, que parece jogar-se vida e a obra de David Foster Wallace, mas também o seu fascínio pelo ténis: "Convido-os a tentarem imaginar como é que seria estar entre os cem melhores do mundo em alguma coisa. Seja no que for. Eu já tentei; é difícil.." Mas regressemos ao ténis. No seu último grande texto sobre o assunto, "Roger Federer as a religious experience", a propósito daquele que é considerado o maior jogo de todos os tempos (Federer vs. Nadal, Wimbledon, 9 de Julho de 2006), escreve: "Imagina que és uma pessoa com reflexos, coordenação e velocidade sobrenaturais, e que jogas um ténis de alto nível. A tua experiência, quando jogas, não é a de quem possui reflexos e velocidade fenomenais; aquilo que te vai parecer é que a bola é enorme, e que tens muito tempo para batê-la. Ou seja, não vais ter nada que se pareça com a experiência (empiricamente real) de rapidez e habilidade que o público te atribui".

O super-herói do ténis serve de metáfora da superescrita. A literatura implica o rigor da linguagem e o golpe de um olhar poético. Só esta mistura produz uma impressão de magia. Uma boa jogada, vista na televisão, é impressionante, mas descrita por Foster Wallace tem outra beleza: as jogadas constroem o resultado (vencedor, derrotado), mas as suas descrições vão criando uma trama que no final reunirá (em nota de rodapé) dois super-atletas, um condutor de autocarro e a criança de sete anos com cancro no fígado que no início do jogo enviou a moeda ao ar.

David Foster Wallace perseguia a grandiosidade. Humanizado pelo ténis ainda na adolescência, a via heróica entrou em latência: seguiram-se os anos de Matemática e Filosofia.

A literatura haveria de tornar-se o seu grande, grande slam. "Ele parecia que ia aspirar tudo". A frase da mãe soa tão esquisita quanto sintomática: o brilhantismo de Foster Wallace é perturbador, aflitivo. A grandiosidade da sua escrita reside na atenção e no detalhe com que sonega a banalidade daquilo que nos é comum. Ele parece aspirar tudo. Quem sabe da dificuldade de conseguir escrever uma frase com uma impressão mínima de real lá dentro percebe que há nisto algo de super-humano: a vida aspirada para dentro da escrita, e a pulsar.

A questão é: o que ficou de sobra nos bolsos, para viver fora da escrita, para além de confusão e medo? "Flashback".»

Fonte e foto - Ípsilon / Público
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